Dr. Rafael Amaral de Castro, CRM-DF 13827

CLÍNICA MÉDICA - RQE Nº: 9934
ONCOLOGIA CLÍNICA - RQE Nº: 10032

Agonistas de GLP-1 no Tratamento do Câncer: Uma Perspectiva para Médicos e Pacientes

Os agonistas de GLP1 , o princípio ativo das famosas canetas emagrecedoras, demonstram mais um surpreendente efeito benéfico: aumento de sobrevida em câncer. E são vários tumores. Aumentos surpreendente mesmo comparado a outras drogas para controle do Diabetes. Um estudo da ASCO 2026 trouxe luz sobre este tema. Para mim, essa classe de droga passa a fazer parte do arsenal do oncologista também.

Dr Rafael Amaral de Castro

6/6/20269 min read

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Introdução aos Agonistas de GLP-1

A medicina oncológica está em constante evolução, e a compreensão das terapias emergentes é essencial tanto para profissionais da saúde quanto para pacientes. Os agonistas de GLP-1, substâncias que imitam a ação do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1, têm despertado interesse no tratamento de doenças metabólicas e, mais recentemente, no manejo do câncer. Este artigo busca explorar sua aplicação, particularmente no que diz respeito à sua interação com o tratamento oncológico.

Como os Agonistas de GLP-1 Funcionam?

Os agonistas de GLP-1 atuam no sistema endócrino, promovendo a secreção de insulina e inibindo a liberação de glucagon, o que resulta em um melhor controle glicêmico. Estudos têm mostrado que essas substâncias podem ter efeitos benéficos em tumores, influenciando a progressão do câncer e melhorando os resultados dos pacientes. Considerando que muitos pacientes oncológicos enfrentam desafios associados à diabetes, o uso de agonistas de GLP-1 pode também proporcionar uma abordagem holística em seu tratamento.

Implicações para Médicos e Pacientes

Para os médicos não especialistas, é crucial entender que a introdução de agonistas de GLP-1 como parte do tratamento oncológico não deve ser feita de maneira isolada. É necessário considerar a individualidade clínica de cada paciente, avaliando suas condições preexistentes e a interação com outros medicamentos. Os oncologistas devem estar atentos às novas diretrizes e estudos que possam indicar a eficácia destes agonistas nas diferentes fases do câncer.

Pacientes, por outro lado, devem ser informados sobre os potenciais benefícios e riscos associados ao uso de agonistas de GLP-1. A educação sobre sua ação, os efeitos colaterais possíveis e a importância da adesão ao tratamento são fundamentais para a otimização das terapias. O entendimento claro de como esses medicamentos atuam no corpo pode ajudar a mitigar as ansiedades dos pacientes e melhorar a adesão ao tratamento.

Além disso, em um vídeo explicativo que acompanhamos neste texto, detalho mais sobre a ação dos agonistas de GLP-1 e as suas implicações no tratamento oncológico. Recomendo que tanto médicos quanto pacientes assistam para uma melhor compreensão do assunto, permitindo um diálogo mais informado e alterando a percepção sobre o tratamento do câncer com novas estratégias terapêuticas.

O Papel dos Agonistas de GLP-1 na Oncologia: Redução de Recorrência e Aumento de Sobrevida

Relatório Técnico de Atualização Científica - ASCO 2026

Introdução

Os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon 1 (GLP-1RAs), amplamente estabelecidos no manejo do diabetes mellitus tipo 2 (DM2) e da obesidade, têm demonstrado propriedades pleiotrópicas que se estendem além do controle metabólico. Recentemente, a atenção da comunidade oncológica voltou-se para o potencial destas medicações em modular o microambiente tumoral, reduzir a inflamação sistêmica e influenciar positivamente os desfechos clínicos em pacientes com câncer.

Durante o American Society of Clinical Oncology (ASCO) Annual Meeting de 2026 e o ASCO Gastrointestinal Cancers Symposium de 2026, uma série de estudos robustos de vida real (real-world data) foram apresentados, consolidando a hipótese de que os GLP-1RAs podem atuar como aliados terapêuticos significativos. Estes estudos sugerem benefícios tangíveis na redução do risco de metástases, diminuição da recorrência e aumento da sobrevida global, particularmente em tumores relacionados à obesidade, como o câncer colorretal, câncer de mama, câncer de pulmão e hepatocarcinoma.

Este relatório compila e analisa detalhadamente os principais estudos apresentados na ASCO 2026, focando no câncer colorretal e na interação dos GLP-1RAs com a imunoterapia, além de explorar os mecanismos de ação propostos que fundamentam esses achados clínicos promissores.

Estudos Pivotais Apresentados na ASCO 2026

1. Impacto na Sobrevida e Risco Metastático no Câncer Colorretal

O estudo "Real-world analysis on the impact of GLP-1 receptor agonists on survival and metastatic risk in colorectal cancer" [1] avaliou a associação entre o uso de GLP-1RAs e os desfechos de mortalidade e metástase em pacientes com câncer colorretal (CCR).

Desenho do Estudo: Estudo retrospectivo de coorte utilizando a base de dados TriNetX (130 milhões de pacientes). Pacientes com CCR recebendo GLP-1RAs (coorte A) foram pareados por escore de propensão com não usuários (coorte B). Resultados Principais:

Após o pareamento (5.170 pacientes por braço), o uso de GLP-1RA foi associado a uma redução de 53% na mortalidade por todas as causas em 10 anos (HR: 0.466; IC 95%: 0.414-0.524).

A Redução de Risco Absoluto (ARR) foi de 5.57%, resultando em um Número Necessário para Tratar (NNT) de 18.

O benefício de sobrevida foi consistente em vários subgrupos: idade ≥65 anos (HR: 0.569), com DM2 (HR: 0.488), sem DM2 (HR: 0.286), IMC ≤29 (HR: 0.538), IMC ≥30 (HR: 0.515), e pacientes submetidos a colectomia + quimioterapia (HR: 0.369).

Análise específica por agente revelou benefício de mortalidade com tirzepatida (HR: 0.065), semaglutida (HR: 0.377) e dulaglutida (HR: 0.556).

Não houve associação significativa com o aumento ou redução drástica de metástases (HR: 0.895; IC 95%: 0.777-1.032).

Impacto Clínico: Este estudo sugere um forte benefício oncológico além do controle glicêmico, indicando que os GLP-1RAs são seguros e podem melhorar substancialmente a sobrevida a longo prazo em pacientes com CCR.

2. Redução de Recorrência em Câncer Colorretal Estágio I-III

O estudo "Relationship between GLP-1 receptor agonists on cancer recurrence and survival of patients with stage I-III colorectal cancer" [2] investigou a influência a longo prazo dos GLP-1RAs na recorrência e sobrevida.

Desenho do Estudo: Estudo de coorte retrospectivo (TriNetX) envolvendo adultos com CCR estágio I-III diagnosticados entre 2005 e 2025. O grupo de exposição recebeu prescrição de GLP-1RA após o diagnóstico de CCR. Resultados Principais:

Após pareamento (839 pacientes por grupo), o uso de GLP-1RA associou-se a um menor risco de recorrência (RR: 0.33; IC 95%: 0.25-0.45; p < 0.001).

A Sobrevida Livre de Recorrência (RFS) em 5 anos foi significativamente superior nos usuários de GLP-1RA (89.0% vs 72.8%; HR: 0.37; p < 0.001).

A Sobrevida Global (OS) em 5 anos também foi superior (82.5% vs 71.4%; HR: 0.45; p < 0.001).

Os benefícios de sobrevida e recorrência se mantiveram em uma análise secundária com seguimento mediano de 15 anos.

Impacto Clínico: Demonstra que a introdução de GLP-1RAs no cenário adjuvante/pós-operatório pode modificar a história natural da doença, reduzindo drasticamente as chances de retorno do tumor.

3. Sinergia com Imunoterapia no Câncer Colorretal Metastático

O trabalho "Association of concurrent GLP-1 receptor agonist use with survival outcomes in patients with metastatic colorectal cancer receiving immune checkpoint inhibitors" [3] avaliou o impacto clínico dos GLP-1RAs nos resultados da imunoterapia (inibidores de checkpoint imunológico - ICIs).

Desenho do Estudo: Estudo observacional retrospectivo (TriNetX). Adultos com CCR metastático que receberam pelo menos um ICI foram avaliados. A exposição foi definida como prescrição de GLP-1RA dentro de 6 meses antes ou após o início do ICI. Resultados Principais:

Após pareamento (138 pacientes por coorte), a mortalidade em 1 ano foi menor no grupo GLP-1 (27.5% vs 40.6%; RR: 0.68; HR: 0.67).

A associação persistiu em 3 anos (27.5% vs 41.3%; RR: 0.67) e 5 anos (28.3% vs 42.0%; RR: 0.67).

A probabilidade de sobrevida em 5 anos foi maior com a co-exposição (50.5% vs 41.5%).

O grupo GLP-1 apresentou menor incidência de efeitos colaterais e complicações, como pneumonia (10.9% vs 17.4%; HR: 0.58) e exacerbações de insuficiência cardíaca (23.9% vs 31.9%; HR: 0.75).

Impacto Clínico: Sugere uma forte interação imunometabólica. Os GLP-1RAs não apenas parecem seguros para uso concomitante com ICIs, como podem atuar como modificadores adjuntos da resposta à imunoterapia, melhorando a sobrevida e mitigando eventos adversos.

4. Mitigação da Progressão Metastática em Múltiplos Tumores Sólidos

O estudo "Can GLP-1 receptor agonists mitigate cancer progression? A propensity-matched analysis across seven solid tumors" [4] comparou GLP-1RAs com inibidores da DPP-4 (gliptinas).

Desenho do Estudo: Análise de 12.112 pacientes com 7 tipos de câncer relacionados à obesidade (estágio I, II ou III). Resultados Principais:

Para 4 dos 7 tipos de câncer, os pacientes que tomaram GLP-1RAs tiveram 38% a 50% menos probabilidade de progredir para o estágio IV em comparação com as gliptinas.

Taxas de progressão metastática (GLP-1 vs Gliptina):

Câncer de Pulmão (NSCLC): 10% vs 22%

Câncer de Mama: 10% vs 20%

Câncer Colorretal: 13% vs 22%

Câncer de Fígado: 19% vs 28%

A alta expressão do receptor GLP-1 (GLP-1R) nos tumores foi associada a um risco 33% menor de morte em geral.

Impacto Clínico: Fornece evidências substanciais de que os GLP-1RAs exercem efeitos protetores sistêmicos contra a progressão metastática em uma variedade de tumores sólidos associados à obesidade.

Mecanismos de Ação Propostos

A eficácia observada dos GLP-1RAs em cenários oncológicos não se limita apenas à perda de peso (embora esta desempenhe um papel crucial na redução do risco de cânceres associados à obesidade). Pesquisas mecanicistas recentes [5] [6] [7] elucidam vias moleculares específicas:

1. Modulação Metabólica e Reversão do Efeito Warburg

A sinalização do GLP-1R atua diretamente no metabolismo tumoral. Evidências sugerem que a ativação do GLP-1R pode reverter o Efeito Warburg (glicólise aeróbica típica de células cancerígenas), restaurando a função mitocondrial normal. Além disso, modula vias de metabolismo da glutamina e autofagia, restringindo a plasticidade metabólica necessária para o crescimento e sobrevivência do tumor.

2. Efeitos Imunomodulatórios e Sinergia com ICIs

O microambiente tumoral é frequentemente imunossupressor. Os GLP-1RAs demonstraram capacidade de remodelar a polarização dos macrófagos (favorecendo o fenótipo M1 antitumoral em detrimento do M2 pró-tumoral) e suprimir células mieloides supressoras (MDSCs). Concomitantemente, aumentam a atividade de células T citotóxicas e células Natural Killer (NK). Esta atenuação da imunossupressão explica a sinergia observada com os inibidores de checkpoint imunológico.

3. Propriedades Anti-inflamatórias Diretas

A inflamação crônica é um "hallmark" do câncer. Os GLP-1RAs ativam vias de sinalização como cAMP-PKA-AMPK, que subsequentemente suprimem a ativação do Fator Nuclear kappa B (NF-κB). Esta inibição reduz drasticamente a produção e liberação de citocinas pró-inflamatórias (como TNF-α e IL-6), modificando um ambiente que de outra forma seria propício à proliferação e metástase tumoral.

Considerações Clínicas e Práticas

Para o oncologista clínico, os dados emergentes da ASCO 2026 trazem implicações práticas importantes:

1 Segurança: O uso de GLP-1RAs (como semaglutida, tirzepatida, liraglutida) em pacientes oncológicos parece ser altamente seguro. Não há evidências de comprometimento da eficácia dos tratamentos oncológicos padrão (cirurgia, quimioterapia, imunoterapia).

2 Manejo de Efeitos Adversos: Observou-se uma tendência de menor toxicidade e redução de eventos adversos (como pneumonia e insuficiência cardíaca) em pacientes utilizando GLP-1RAs juntamente com imunoterapia. No entanto, recomenda-se monitoramento oftalmológico (risco potencial de retinopatia diabética) em pacientes suscetíveis.

3 Indicação: Atualmente, os GLP-1RAs não são aprovados primariamente como drogas antineoplásicas. Seu uso deve seguir as indicações aprovadas (DM2 e obesidade). Contudo, para pacientes oncológicos que apresentam essas comorbidades, os GLP-1RAs despontam como a classe terapêutica de escolha, dado o benefício duplo (metabólico e oncológico).

4 Protocolos de Tratamento: Não há alterações nos protocolos de quimioterapia ou imunoterapia padrão. Os GLP-1RAs atuam como medicações adjuvantes no controle de comorbidades, com o benefício pleiotrópico de melhora da sobrevida oncológica.

Conclusão

Os dados apresentados na ASCO 2026 representam uma mudança de paradigma potencial na intersecção entre endocrinologia e oncologia. Os agonistas de GLP-1 demonstraram associações robustas com a redução do risco metastático, diminuição da recorrência e aumento significativo da sobrevida global, especialmente no câncer colorretal e em pacientes recebendo imunoterapia.

Embora esses achados sejam provenientes de grandes coortes de dados de mundo real (real-world evidence) e necessitem de validação por ensaios clínicos randomizados prospectivos, eles fornecem uma justificativa biológica e clínica forte para considerar os GLP-1RAs como aliados estratégicos no manejo holístico do paciente oncológico.

Referências

[1] Jones C, Neely A, Obomanu E, et al. Real-world analysis on the impact of GLP-1 receptor agonists on survival and metastatic risk in colorectal cancer. J Clin Oncol, 2026; 44(2_suppl): 62. Disponível em: https://ascopubs.org/doi/10.1200/JCO.2026.44.2_suppl.62

[2] Kinsey EN, Tatum KL, Velez-Mejia C, et al. Relationship between GLP-1 receptor agonists on cancer recurrence and survival of patients with stage I-III colorectal cancer: A retrospective cohort study using the TriNetX database. J Clin Oncol, 2026; 44(16_suppl): 3636. Disponível em: https://ascopubs.org/doi/abs/10.1200/JCO.2026.44.16_suppl.3636

[3] Rawal S, Mal M, Tummala NC, et al. Association of concurrent GLP-1 receptor agonist use with survival outcomes in patients with metastatic colorectal cancer receiving immune checkpoint inhibitors. J Clin Oncol, 2026; 44(16_suppl): 3605. Disponível em: https://ascopubs.org/doi/abs/10.1200/JCO.2026.44.16_suppl.3605

[4] Orland MD, Mandala A, Unlu S, et al. Can GLP-1 receptor agonists mitigate cancer progression? A propensity-matched analysis across seven solid tumors. ASCO Annual Meeting, 2026. Resumo disponível via ASCO Press Center: https://www.asco.org/about-asco/press-center/glp-may-reduce-metastatic-progression

[5] Zheng Z, Zong Y, Ma Y, et al. Glucagon-like peptide-1 receptor: mechanisms and advances in therapy. Signal Transduction and Targeted Therapy, 2024; 9(234). Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41392-024-01931-z

[6] Alharbi SH. Anti-inflammatory role of glucagon-like peptide 1 receptor agonists and its clinical implications. Ther Adv Endocrinol Metab, 2024; 15. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10823863/

[7] Luo Y, Xu H, Zhao Y, et al. GLP-1 signaling in tumor metabolism and immunity: mechanisms and strategies. Food & Function, 2025; 16: 8943-8964. Disponível em: https://pubs.rsc.org/en/content/articlehtml/2025/fo/d5fo03273c

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