
Dr. Rafael Amaral de Castro, CRM-DF 13827
CLÍNICA MÉDICA - RQE Nº: 9934
ONCOLOGIA CLÍNICA - RQE Nº: 10032
Entendendo as Vacinas Contra o Câncer
Dr Rafael Amaral de Castro
8/21/202610 min read
veja o vídeo aqui
Introdução às Vacinas Oncológicas
Introdução
As vacinas contra o câncer representam uma mudança de paradigma na oncologia: em vez de prevenir uma infecção, como as vacinas tradicionais, elas treinam o sistema imunológico do próprio paciente a reconhecer e destruir células tumorais, transformando o câncer em um alvo reconhecível para o corpo atacar. Existem hoje duas grandes plataformas tecnológicas em desenvolvimento clínico. A primeira é a de vetor viral, na qual um vírus geneticamente modificado — tornando-se incapaz de se replicar e, portanto, seguro — é usado como "cavalo de troia" para entregar instruções genéticas que codificam antígenos tumorais às células do paciente; é essa a tecnologia da plataforma ChAdOx, a mesma família de vetores que serviu de base à vacina Oxford/AstraZeneca contra a COVID-19, e que está sendo aplicada na vacina preventiva LungVax contra o câncer de pulmão. A segunda é a de RNA mensageiro, na qual o mRNA — a mesma plataforma das vacinas de COVID da Pfizer e da Moderna — é injetado para que as células apresentadoras de antígeno produzam e exibam na superfície os neoantígenos, as mutações únicas de cada tumor, ativando linfócitos T que passam a caçar e eliminar as células que carregam esses alvos. É essa plataforma que concentra os estudos mais avançados da área: a vacina individualizada intismeran autogene (mRNA-4157/V940), da Merck e da Moderna, acaba de ter o primeiro resultado positivo de Fase 3 da história no melanoma, enquanto a BNT116, da BioNTech, avança em fases iniciais no câncer de pulmão, e a autogene cevumeran mostra resultados promissores no câncer de pâncreas. Em resumo, enquanto a plataforma de vetor viral lidera a aposta em vacinas preventivas, é na plataforma de mRNA, com as vacinas terapêuticas individualizadas, que os estudos estão mais maduros e mais próximos de mudar a prática clínica.
1) As vacinas contra câncer e o melanoma
O melanoma é o tumor cutâneo mais agressivo e, historicamente, um dos mais desafiadores em oncologia, porque é altamente imunogênico — o que hoje se tornou sua maior vantagem. Nas últimas duas décadas, o tratamento do melanoma metastático e de alto risco passou por uma revolução silenciosa e profunda. Primeiro vieram os inibidores de checkpoint imunológico, como o ipilimumabe (anti-CTLA-4) e, sobretudo, os anti-PD-1, como pembrolizumabe e nivolumabe, que reativaram a capacidade do sistema imune de reconhecer e destruir o tumor. Em paralelo, a terapia-alvo com inibidores de BRAF e MEK transformou o prognóstico dos pacientes com mutação BRAF V600. No cenário adjuvante — ou seja, após a ressecção cirúrgica completa de doença localizada de alto risco —, a imunoterapia com anti-PD-1 passou a reduzir de forma consistente o risco de recorrência e de metástase à distância, tornando-se o padrão de cuidado.
É exatamente nesse cenário adjuvante que surge o avanço mais recente e mais comentado: a vacina de mRNA individualizada. Em agosto de 2026, o estudo de Fase 3 INTerpath-001, conduzido pela Merck e pela Moderna, anunciou que a combinação de intismeran autogene (a vacina, também chamada mRNA-4157 ou V940) com pembrolizumabe atingiu os dois desfechos primários — sobrevida livre de recorrência e sobrevida livre de metástase à distância — em pacientes com melanoma estádio IIB a IV completamente ressecado. Foi o primeiro estudo de Fase 3 positivo da história para uma terapia de neoantígeno individualizada, e isso tem um peso enorme: pela primeira vez, um ensaio randomizado de grande porte provou, com rigor estatístico, que ensinar o sistema imune a atacar as mutações específicas de um tumor reduz a chance de a doença voltar. É importante, porém, ser preciso: os números exatos de hazard ratio e valor de p ainda não foram divulgados — o anúncio foi de topline, não a publicação completa. O que sustenta o racional vem do estudo de Fase 2b KEYNOTE-942, publicado no Lancet em 2024, que mostrou, com três anos de seguimento, uma redução de cerca de 49% no risco de recorrência ou morte (HR 0,510) e de cerca de 62% no risco de metástase à distância (HR 0,384) com a vacina somada ao pembrolizumabe em comparação ao pembrolizumabe isolado.
2. A vacina preventiva de Oxford: a LungVax
A LungVax representa uma proposta conceitualmente diferente de tudo o que foi discutido até aqui, e por isso merece uma distinção cuidadosa. Enquanto as vacinas terapêuticas tratam quem já tem a doença, a LungVax é uma vacina preventiva — a primeira do mundo desenhada para impedir o surgimento do câncer de pulmão em pessoas de alto risco. Ela foi desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a University College London e o Francis Crick Institute, com financiamento da Cancer Research UK e da CRIS Cancer Foundation.
É fundamental esclarecer que a LungVax não é uma vacina de mRNA. Ela usa a plataforma de vetor adenoviral ChAdOx2, a mesma família de tecnologia do vetor ChAdOx1 que serviu de base à vacina Oxford/AstraZeneca contra a COVID-19. O vetor é um adenovírus de símio geneticamente modificado para não se replicar, e carrega instruções genéticas para 22 mutações "hotspot" do câncer de pulmão, além dos antígenos tumorais NY-ESO-1 e MUC1. A lógica é elegante: durante a carcinogênese pulmonar, as células anormais exibem na superfície pequenos fragmentos proteicos — os neoantígenos — que funcionam como bandeiras de perigo. Na maioria das vezes, o sistema imune reconhece e elimina essas células. Mas, em alguns casos, ele falha, e essas células acumulam mutações ao longo de anos ou décadas até formarem um tumor. A vacina ensina o sistema imune a reconhecer e matar qualquer célula que carregue essas bandeiras, antes que elas se transformem em câncer.
É preciso, no entanto, ser muito claro sobre o estágio dessa tecnologia: a LungVax ainda não tem nenhum estudo clínico prévio em humanos. Ela é first-in-human. O ensaio de Fase 1, registrado sob o código ISRCTN70717445, começou a recrutar em junho de 2026 e está em andamento, mas até agora nenhum paciente foi incluído. O desenho é modular, aberto e não randomizado, com duas coortes: a primeira com vinte pacientes que tiveram câncer de pulmão de não pequenas células em estádio inicial (IA/IB) ressecado cirurgicamente, para avaliar a prevenção de recorrência; e a segunda com vinte pessoas de 55 a 74 anos participantes do programa de rastreamento do NHS, que nunca tiveram câncer, para avaliar a prevenção de um tumor primário novo. A vacina é administrada por via intramuscular em quatro doses ao longo de dezoito meses, e o desfecho primário é de segurança e imunogenicidade — ou seja, medir se é segura e se gera resposta de células T. Não há, neste momento, nenhum dado de eficácia preventiva, e os próprios pesquisadores fazem questão de lembrar que a vacina não substitui a cessação do tabagismo, que continua sendo a medida mais eficaz de redução de risco. Mesmo em um cenário otimista, a disponibilidade para a população está a muitos anos, provavelmente uma década ou mais, pois ainda faltam as fases 2 e 3.
3. A vacina no tratamento do câncer de pulmão em desenvolvimento
Para o câncer de pulmão, a vacina mais avançada em desenvolvimento é a BNT116, da BioNTech, em parceria com a Regeneron. Diferentemente da LungVax, a BNT116 é uma vacina terapêutica, usada para tratar quem já tem a doença, e também não é personalizada: ela é do tipo "off-the-shelf", baseada na plataforma FixVac, e codifica seis antígenos associados ao tumor frequentemente expressos no câncer de pulmão de não pequenas células — CLDN6, KK-LC-1, MAGE-A3, MAGE-A4, MAGE-C1 e PRAME. O objetivo é treinar o sistema imune para reconhecer células tumorais que expressam esses marcadores e destruí-las.
A BNT116 está sendo avaliada no estudo de Fase 1 LuCa-MERIT-1, que inclui múltiplas coortes de pacientes com doença avançada ou metastática, sempre em combinação com o anti-PD-1 cemiplimabe. O primeiro paciente do mundo a receber a vacina para câncer de pulmão foi tratado em agosto de 2024 no University College London Hospital, e os dados preliminares apresentados em congressos como AACR e WCLC mostraram um perfil de segurança favorável e atividade antitumoral preliminar, inclusive em pacientes mais frágeis e em coortes pós-quimiorradioterapia. É importante, porém, ser honesto sobre a maturidade dos dados: estamos falando de Fase 1/2, com resultados preliminares de segurança e imunogenicidade, e ainda não há hazard ratio, taxa de resposta definitiva ou valor de p de sobrevida para reportar. O estudo de Fase 3, chamado EMPOWERVAX Lung 1, está em andamento. Ou seja, a vacina terapêutica para câncer de pulmão é promissora, mas está em estágio inicial de desenvolvimento clínico.
4. As Perguntas Frequentes
Vou responder às perguntas de forma direta e honesta, porque esse é um tema em que a precisão protege o paciente e a credibilidade da matéria.
Primeiro, é importante desfazer uma confusão comum: essa vacina não previne o câncer como as vacinas contra vírus previnem uma infecção. Ela trata quem já tem a doença, ensinando o sistema imunológico a reconhecer e atacar as células tumorais. A única exceção em desenvolvimento é a vacina de Oxford, a LungVax, que é preventiva, mas ela está em fase inicial de estudo e se destina apenas a pessoas de alto risco, não à população geral. Portanto, quando se fala em "vacina contra o câncer", na grande maioria dos casos estamos falando de uma terapia, não de uma prevenção.
Sobre quais tipos de câncer ela pode ser usada, o campo mais avançado hoje é o melanoma, onde o estudo de Fase 3 INTerpath-001 acabou de dar resultado positivo — um marco histórico. Em câncer de pulmão, a vacina BNT116 está em desenvolvimento, mas ainda em fases iniciais. Há também estudos promissores em câncer de pâncreas e colorretal. A tecnologia é adaptável, o que torna plausível estender o paradigma a vários tumores no futuro, mas ainda não existe uma vacina universal.
O mecanismo é fascinante. As vacinas de neoantígeno funcionam sequenciando o tumor de cada paciente, identificando as mutações únicas daquele câncer — os neoantígenos — e fabricando uma vacina sob medida, num processo que leva cerca de seis semanas. Esse mRNA entra nas células apresentadoras de antígeno, que passam a exibir esses neoantígenos na superfície, ativando linfócitos T que saem em busca e destroem as células que carregam esses alvos. Por isso, sim, na maioria dos casos a vacina precisa ser personalizada para cada paciente, porque cada tumor é geneticamente único. Existem também vacinas não personalizadas, como a BNT116, que usam antígenos compartilhados entre tumores, mas as mais avançadas são as individualizadas.
É essencial deixar claro que a vacina não substitui a quimioterapia, a radioterapia ou a cirurgia. Ela é usada em combinação com a imunoterapia, e nos estudos mais avançados ela é adjuvante — ou seja, aplicada após a cirurgia de ressecção, para reduzir o risco de a doença voltar. É uma camada adicional de proteção, não um substituto dos tratamentos tradicionais. A ideia é usá-la junto com outros tratamentos, principalmente com os anti-PD-1, que ajudam a desbloquear o sistema imune enquanto a vacina o direciona.
Os resultados até agora são animadores, mas precisam ser lidos com cuidado. No melanoma, o estudo de Fase 2b mostrou redução de cerca de 49% no risco de recorrência, e o estudo de Fase 3 acabou de confirmar benefício, embora os números exatos ainda não tenham sido publicados. Em câncer de pulmão, os dados são preliminares, de segurança e atividade inicial. Já existem pacientes sendo tratados com essa tecnologia, mas exclusivamente dentro de ensaios clínicos em vários países — o primeiro paciente do mundo a receber a vacina para câncer de pulmão foi tratado em agosto de 2024 em Londres. É importante reforçar que nenhuma vacina de mRNA contra o câncer está aprovada e comercializada em nenhum país até o momento.
Sobre efeitos colaterais, o perfil é, em geral, bem tolerado, com reações semelhantes às das vacinas de mRNA contra a COVID — fadiga, febre, calafrios, dor no local da injeção e dor muscular. Eventos graves são raros, mas existem, e por isso todo o desenvolvimento é feito com monitoramento rigoroso.
Quanto ao tempo até a disponibilidade para a população, a estimativa realista é de cinco a dez anos, mesmo com o sucesso recente no melanoma, porque ainda faltam publicações completas, revisão das agências regulatórias e estudos de fase 3 em outros tumores. No Brasil, foi sancionada em 2026 uma lei que prioriza vacinas contra o câncer e tratamentos inovadores no SUS, com financiamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Isso cria o arcabouço legal, mas não significa disponibilidade imediata — depende de aprovação da Anvisa, incorporação pela Conitec e produção ou compra. É uma promessa de prioridade, não uma entrega atual.
Preciso ser honesto sobre a palavra "cura": não é correto falar em cura neste momento. O que a evidência mostra é uma redução significativa do risco de recorrência em melanoma de alto risco. O benefício em tumores avançados e metastáticos é menos claro e ainda não está comprovado. Uma pessoa saudável não poderia tomar essa vacina para prevenir câncer no futuro — as vacinas terapêuticas não têm esse papel, e a vacina preventiva de Oxford está em estágio inicial e é direcionada a alto risco.
5) Por fim, por que é tão difícil desenvolver uma vacina contra o câncer?
Porque cada tumor é geneticamente único, é preciso identificar neoantígenos imunogênicos, fabricar a vacina rapidamente e, sobretudo, superar a capacidade do tumor de escapar da imunidade. O câncer pode, sim, escapar da vacina: ele pode perder a expressão dos antígenos-alvo, reduzir a apresentação de antígeno, aumentar o PD-L1 e criar um microambiente imunossupressor. É por isso que a vacina é combinada com anti-PD-1 — para frear um dos principais mecanismos de escape. E o que diferencia essa tecnologia das vacinas anteriores é a velocidade, a flexibilidade e a potência imunológica do mRNA, que a mesma plataforma usada na COVID ajudou a amadurecer. Pela primeira vez, um estudo de fase 3 randomizado provou benefício clínico — um passo que, se confirmado, poderá redefinir o tratamento adjuvante de vários tumores nos próximos anos.
6) Referências
Artigos científicos
WEBER, J. S. et al. Individualised neoantigen therapy mRNA-4157 (V940) plus pembrolizumab versus pembrolizumab monotherapy in resected melanoma (KEYNOTE-942): a randomised, phase 2b study. The Lancet, v. 403, n. 10427, p. 632-644, 2024. DOI: 10.1016/S0140-6736(23)02268-7.
ROJAS, L. A. et al. Personalized RNA neoantigen vaccines stimulate T cells in pancreatic cancer. Nature, v. 618, p. 144-150, 2023. DOI: 10.1038/s41586-023-06063-y.
SETHNA, Z. et al. RNA neoantigen vaccines prime long-lived CD8+ T cells in pancreatic cancer. Nature, 2025. DOI: 10.1038/s41586-024-08508-4.
HUSSAIN, M. S. et al. Groundbreaking mRNA lung cancer vaccine trials. Journal of Cancer Research and Therapeutics(verificar periódico), 2025.
Comunicados oficiais e registros de ensaio clínico
MERCK & CO.; MODERNA. Merck and Moderna announce Phase 3 INTerpath-001 trial of intismeran autogene plus KEYTRUDA met endpoints of recurrence-free survival (RFS) and distant metastasis-free survival (DMFS) in patients with completely resected stage IIB-IV melanoma. Rahway: Merck & Co., 19 ago. 2026. Comunicado de imprensa.
BIONTECH. BioNTech announces positive topline Phase 2 results for mRNA immunotherapy candidate BNT111 in patients with advanced melanoma. Mainz: BioNTech SE, 30 jul. 2024. Comunicado de imprensa.
UNIVERSITY OF OXFORD. A clinical trial testing vaccines designed to prevent lung cancer in people at risk of recurrent or new lung cancer (LungVax). Registro ISRCTN70717445. Londres: ISRCTN Registry, 2026. DOI: 10.1186/ISRCTN70717445.
Oncologia
Apoio e informações sobre tratamentos oncológicos.
Contato
Consultas
onconeoaccess@gmail.com
racaralpes@hotmail.com
+55 61 981979192
61 993439998
61 34489255
© 2025. All rights reserved.


